O iene caiu ao seu nível mais fraco contra o dólar em quatro décadas. Pode soar como curiosidade de page de economia, mas é sintoma de algo bem mais profundo: a economia japonesa, que passou décadas tentando injetar crescimento e inflação via taxas de juros próximas a zero (estratégia conhecida como "abenomics"), agora colhe as consequências.
Quando um banco central mantém juros artificialmente baixos por tanto tempo, a sua moeda naturalmente enfraquece — afinal, ninguém quer guardar iene se rende menos que outras opções. Só que o Japão fez isso de propósito, tentando forçar consumo e investimento interno para sair de um bolo econômico travado. Funcionou um pouco, mas criou um rombo fiscal que agora vira problema.
Para o investidor brasileiro, a lição é clara: o que parecia solução fácil (juros zero resolvem?) deixa cicatrizes invisíveis. A desvalorização do iene complica tudo lá: importações ficam mais caras (aumentando inflação), empresas que exportam lucram mais em moeda estrangeira (criando distorções), e quem tem dívida em dólar sofre. É o oposto da austeridade — é a conta chegando depois de anos de festa fiscal.
O Brasil não está na mesma situação (aqui a Selic subiu muito), mas casos como o do Japão lembram por que ciclos de juros baixos demais, por muito tempo, geram efeitos colaterais que ninguém quer: moeda fraca, inflação, desconfiança.