O Tesouro Nacional está numa encruzilhada que não via em duas décadas. Para vender NTN-Bs (títulos que acompanham a inflação), o governo está oferecendo prêmios (juros extras acima do IPCA) nos patamares mais altos da história — e mesmo assim, os investidores estão saindo da porta. Até a última semana de julho, as emissões já haviam despencado para níveis que não se viam desde os anos 2000.
O motivo é simples: a combinação de Selic alta (14,25% ao ano), dólar em patamar elevado e incertezas fiscais fazem os investidores preferirem outras opções. Um investidor pode pegar um CDB pós-fixado (atrelado ao CDI/Selic) com segurança de até R$ 250 mil no FGC, ou esperar por títulos prefixados com rentabilidade maior — por que brigar com a inflação se pode ganhar taxa pura?
Por trás disso está um sinal importante: o mercado está duvidando da capacidade do governo de controlar gastos e inflação futura. Se o investidor desconfia que a inflação vai explodir, ele quer juros reais altos como compensação — daí a exigência por prêmios cada vez maiores. Quando ninguém quer comprar nem com cenoura na frente, é porque o jogo virou.
A dificuldade em rolar a dívida via NTN-Bs força o Tesouro a buscar alternativas (mais dívida pós-fixada ou prefixada), o que pode pressionar ainda mais as taxas lá na frente. É um ciclo que afeta o clima geral do mercado de renda fixa.