Tem uma cena que se repete em toda agência de banco e mesa de assessoria. Você vai guardar um dinheiro e te oferecem duas portas. A primeira tem liquidez diária: você saca quando quiser, e ela rende um pouco menos, algo como 98% do CDI. A segunda é travada por um prazo, rende um pouquinho mais, tipo 100% do CDI, mas o dinheiro fica preso até o vencimento. "Trava, que rende mais", dizem. Soa óbvio. Será que é?

A resposta mora num número que quase ninguém coloca na mesa: o tamanho desse "a mais" em reais.

A conta do "a mais"

Pega uma reserva de R$ 30 mil, por um ano, com o CDI perto de 14,5% ao ano. A porta com liquidez diária (98% do CDI) rende cerca de R$ 4.263. A porta travada (100% do CDI) rende cerca de R$ 4.350.

A diferença é de R$ 87 no ano inteiro. Uns 7 reais por mês. É isso que você ganha por abrir mão de poder colocar a mão no seu dinheiro a qualquer momento. Quando a conta sai do "rende mais" abstrato e vira um número concreto, a conversa muda de figura.

O detalhe que derruba o argumento do imposto

Aí vem o contra-argumento clássico: "mas no travado você paga menos Imposto de Renda". E aqui está a parte que a maioria não sabe.

O IR da renda fixa é regressivo: começa em 22,5% e cai até 15% conforme o tempo passa. Só que ele depende do tempo que o dinheiro fica aplicado, e não da carência do papel. Traduzindo: se você ia deixar o dinheiro guardado pelo mesmo período, paga exatamente a mesma alíquota na porta líquida e na travada.

Ou seja, travar não te dá desconto de imposto nenhum. O único ganho real continua sendo aquela diferencinha de taxa, que líquida de IR encolhe ainda mais. No exemplo acima, os R$ 87 viram uns R$ 72.

Então travar nunca presta?

Presta, em outro contexto. Para um dinheiro que você tem certeza de que não vai tocar por anos (um objetivo de longo prazo, não a sua reserva), prazos mais longos podem render um pouco mais e ainda pegar a alíquota menor de IR lá no fim. Faz sentido.

O erro é travar o dinheiro que você pode precisar amanhã. A reserva de emergência existe justamente pra estar disponível na hora do susto, sem aviso e sem multa. Trocar essa tranquilidade por alguns reais ao ano é um péssimo negócio, por mais que o gráfico do gerente diga o contrário.

A pergunta certa

A pergunta nunca foi "quanto rende a mais". É "quanto vale poder sacar quando a vida pedir". Quem ganha comissão tem todo o incentivo pra não te mostrar o tamanho real dessa diferença. Você, agora, sabe fazer essa conta sozinho.

Bota os seus números na calculadora e veja com os próprios olhos: vale a pena travar o seu dinheiro?

Quer ir mais fundo no tema? A lição completa está na trilha de aprendizado do Invista Bem.